
Em palestra no Encontro de Aposentados/as da APUFPR-SSind, realizado na quarta-feira, 28/10, a professora doutora em Educação Astrid Baecker Avila (UFSC), ex-presidente da APUFPR-SSind, denunciou a influência crescente de institutos e fundações empresariais nas políticas educacionais e na formação de professores e professoras. Para a docente, o avanço desses grupos ameaça a autonomia das universidades públicas e exige organização coletiva para enfrentar a privatização da educação.
“O capital chamou para si a tarefa de educar”, afirmou Astrid, ao abordar a atuação de organizações privadas na formulação de políticas, na gestão das redes públicas e na formação docente. A professora citou entidades como Fundação Lemann, Instituto Ayrton Senna e Todos pela Educação, além de apontar a dimensão desse movimento: pesquisas mencionadas por ela identificaram 213 organizações privadas com foco na educação pública em Santa Catarina e 1.780 em âmbito nacional.
Segundo a docente, esses grupos ampliaram sua presença por meio de programas, editais e parcerias que direcionam recursos públicos à iniciativa privada. “Hoje é uma bolada de grana que está nesses editais, e a gente não consegue mais nem disputar”, alertou, ao comparar o cenário atual com o período em que as universidades públicas realizavam ações de formação de professores/as em escolas de diferentes regiões.
Formação docente sob a lógica do mercado
Astrid também destacou a expansão da educação a distância (EaD) privada nas licenciaturas. Conforme os dados apresentados durante a palestra, entre 67% e 70% dos estudantes de cursos de formação docente estão nessa modalidade, enquanto 81% dos concluintes são provenientes da EaD. Para ela, esse modelo favorece a formação acelerada, padronizada, sem a qualidade necessária e subordinada às demandas do mercado.
A professora relacionou esse processo às mudanças nas políticas educacionais desde o final dos anos 1990, intensificadas por reformas e diretrizes curriculares, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as normas para a formação de professores/as implementadas nos governos Temer e Bolsonaro. Na avaliação dela, essas medidas reduzem o espaço para uma formação teórica crítica e para a autonomia pedagógica.
A plataformização do ensino e o uso de tecnologias digitais também foram alvo de críticas. Astrid questionou a ideia de que ferramentas tecnológicas possam substituir a interação presencial no processo educativo. “Nada supera essa relação presencial que a gente tem de olho no olho”, afirmou, ressaltando a importância da troca entre estudantes e docentes para a construção do conhecimento.
Universidade pública e organização coletiva
Em contraposição à lógica empresarial, Astrid defendeu uma formação docente crítica, consistente e comprometida com a sociedade. Para ela, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão é um dos pilares que distinguem as universidades públicas e deve ser preservada diante das pressões privatistas.
A docente também ressaltou que a defesa da educação pública depende de mobilização permanente. “Não adianta a gente eleger o Lula e esquecer que a gente tem que estar nas ruas”, afirmou, defendendo a pressão social e a construção de um projeto de educação comprometido com os interesses coletivos.
Nesse sentido, destacou a importância da organização sindical, especialmente por meio do Grupo de Trabalho de Política Educacional (GTPE), do ANDES-SN, e da participação nos fóruns de licenciatura e em entidades científicas. Para Astrid, é fundamental articular docentes da ativa e aposentados/as, estudantes e trabalhadores/as da educação na resistência ao avanço da privatização e na defesa da universidade pública, democrática e socialmente referenciada.
