
O Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes remete ao caso de Araceli, menina de 8 anos assassinada após sofrer violência sexual no Espírito Santo, em 1973. Seus agressores foram identificados e absolvidos. O caso se tornou símbolo não apenas da brutalidade da violência contra a infância, mas da cumplicidade de um sistema que historicamente protege agressores.
Mais de cinquenta anos depois, o Brasil ainda não resolveu o problema e os dados mostram que ele se agrava.
O Atlas da Violência 2025, divulgado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou alta expressiva em todos os tipos de violência contra crianças na primeira infância: 383,4% nos episódios de violência sexual, 338,8% nos casos de negligência e 195,7% nos de violência física. A conclusão de especialistas é direta: estamos diante de um colapso da proteção básica à infância. A cada dez casos de violência nessa faixa etária, sete ocorrem dentro de casa.
A violência sexual mantém um perfil alarmante. Em 2023, 73,5% das notificações de violência sexual no país tinham como vítimas crianças e adolescentes, com meninas representando 87,1% dos casos. Em 67,4% das ocorrências, o abuso aconteceu no ambiente residencial, o que significa que, na maioria dos casos, o agressor é alguém próximo. A lógica do silêncio dentro da família é parte constitutiva do problema.
O ambiente digital ampliou o alcance dessa violência de forma dramática. Em apenas um ano, uma a cada cinco crianças e adolescentes entre 12 e 17 anos no Brasil foi vítima de exploração ou abuso sexual facilitados pela tecnologia – ou cerca de 3 milhões de meninas e meninos. Em quase metade dos casos, o abuso foi cometido por alguém conhecido da vítima. E 34% das vítimas não contaram o ocorrido para ninguém.
A SaferNet Brasil registrou, entre janeiro e julho de 2025, 49.336 denúncias de abuso e exploração sexual infantil na internet, que representaram 64% de todas as denúncias recebidas no período, com crescimento de 18,9% em relação ao mesmo intervalo de 2024.
Esses números não são estatísticas abstratas. São crianças com nome, com endereço, com escola. E é justamente na escola e na universidade que parte da solução pode ser construída.
A APUFPR-SSind reafirma seu compromisso com a proteção integral da infância e da adolescência. Professoras e professores são agentes de proteção. A universidade pública, que forma os profissionais da educação, cumpre papel essencial na rede de enfrentamento à violência. Defender a educação pública é também defender que nenhuma criança fique sem alguém capacitado para enxergar, acolher e denunciar.
Se você souber de um caso, denuncie. Disque 100, gratuito, anônimo, 24 horas.




