NOTA SOBRE A VIOLÊNCIA DE GÊNERO NA UFPR: A RESPONSABILIZAÇÃO INDIVIDUAL DOS AGRESSORES NÃO É SUFICIENTE

A diretoria da APUFPR-SSind – Gestão Autonomia e Luta vem a público manifestar o seu posicionamento em relação aos fatos recentemente divulgados pelo Diretório Acadêmico Nilo Cairo (DANC), do curso de medicina da UFPR, envolvendo a existência de grupos de WhatsApp organizados para a consecução de práticas de violência sexual, perseguição e ameaças contra estudantes mulheres do referido curso. A situação é extremamente preocupante e exige forte atuação tanto das autoridades da segurança pública, como da direção da Universidade.

  

Desde os primeiros relatos das ameaças sofridas pelas estudantes da UFPR, chamaram a atenção os tímidos movimentos e a ausência de um pronunciamento contundente sobre as providências concretas que estariam sendo tomadas, seja para a investigação interna e externa dos fatos, proteção das vítimas, responsabilização dos infratores e prevenção das condutas que possam concretizar as ameaças feitas. Foi preciso uma forte pressão popular para que declarações mais incisivas e elucidativas fossem dadas pela Reitoria.  

Esse episódio vem a público no exato momento em que a atual gestão da APUFPR-SSind – Gestão Autonomia e Luta aguarda, há pelo menos três semanas, a realização de uma reunião agendada com a Reitoria, solicitada com urgência, para tratar de casos atuais de violências de gênero contra professoras da UFPR, na forma de assédios sexuais, morais e ameaças. O Sindicato é frequentemente procurado para a obtenção de apoio psicológico, jurídico e institucional, principalmente por professoras, que alegam poucas medidas protetivas efetivas da Administração. 

Os relatos que nos chegam indicam o risco de leniência com os agressores que tendem a serem protegidos pelo imobilismo ou lentidão institucional, falta de protocolos e fluxos (ou de sua ampla divulgação), pela burocracia protelatória e gerencialismo, que acabam por favorecer a impunidade e reproduzir o machismo estrutural.   

Os dados sobre a crescente onda de violência contra as mulheres no país são alarmantes. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a escalada dos feminicídios atingiu em 2025 o maior número da última década. Com 1.568 mulheres assassinadas em razão de sua condição de gênero, houve um aumento de 4,7% em relação a 2024. O mais assustador tem sido o crescimento dos casos de violência sexual e estupros, com mais de 87,5 mil registros ou um caso a cada seis minutos. O próprio estudo indica que os números são subestimados devido à subnotificação.   

Assim, o movimento sindical docente se posiciona firme e solidariamente ao lado do movimento estudantil da UFPR, neste caso em particular do Diretório Acadêmico do Curso de Medicina, em defesa das vítimas das ameaças de estupro, e da necessidade urgente de um debate mais amplo na comunidade acadêmica, sobre medidas específicas no que tange ao episódio em questão (mas não somente a este), como também às raízes mais profundas deste grave problema, que carecem de maior inteligibilidade para seu efetivo enfrentamento. 

Além de reivindicarmos as medidas apropriadas diante da gravidade das violências que o caso em particular evoca, como a apuração imediata, rigorosa e transparente, com a devida responsabilização administrativa dos envolvidos, reivindicamos também a não redução do problema à esfera administrativa e criminal de punição individual dos envolvidos. Demandamos, sim, uma abordagem séria e responsável, comprometida em impulsionar um amplo e efetivo debate na comunidade universitária com fins à construção coletiva de conscientização, compromissos e medidas de enfrentamento aos problemas estruturais e circunstanciais que fertilizam os ciclos de violências em geral e em particular de gênero e étnico-raciais. Que sejam transversais à totalidade das nossas atividades de trabalho e estudo, em todo e qualquer curso e departamento.    

Seguiremos acompanhando o caso, cobrando providências, mas também reivindicando uma abordagem ética, científica e política do tema, que a Universidade Pública pode realizar, por ser um espaço rico e diverso de saberes e práticas, possibilitado pelo exercício da Autonomia Universitária, em favor da emancipação e dignidade humana.     

Diretoria da APUFPR-SSind – Gestão Autonomia e Luta   

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