A FAUNA PRESIDENCIÁVEL*

A FAUNA PRESIDENCIÁVEL*

2018-12-07T17:10:21+00:0002 outubro 2018|

joaoAté o momento mantive-me em silêncio sobre as eleições de 2018. Vou quebrar meu silêncio por estar recebendo anexos sobre candidatos(as), inclusive alguns dos quais eu não gostaria de receber. Fundamental fazer alguns alertas iniciais:

– Sou de esquerda;

– A esquerda, o comunismo e o socialismo não acabaram. O que acabou foi uma experiência de comunismo na extinta União Soviética;

– As ideias de Marx continuam valendo, e convido aqueles que falam bobagens a ler suas obras, ou, se for mais fácil, a ver alguns vídeos no YouTube;

– Não vou entrar no jogo daqueles provocadores que poderão me ofender, sejam amigos, parentes ou conhecidos;

– Vou respeitar as posições de todos e todas, mesmo as mais imbecis.

Feito esses alertas, vamos ao textão.

Um pouco da conjuntura: na última eleição para presidente aconteceu uma polarização impressionante em torno dos candidatos Aécio Neves e Dilma Rousseff, fato que foi lastimável porque desencadeou uma polarização de posições políticas que culminou em violência e toda sorte de exageros de ambas as partes. Veio o golpe que reencenou uma trágica montagem adaptada do pré-golpe de 64, com o acirramento do conservadorismo e aprofundamento da retirada de direitos sociais, alguns idealizados pelo próprio liberalismo (leia-se direita). Ah, mas tinha a lava-jato no meio do caminho e a república de Curitiba. A lava-jato avançou, prendeu, condenou, cometeu abusos e tornou o juiz famoso, bem como a república de Curitiba, que virou presídio federal, mas foi notada, apareceu. O maior ladrão do Brasil nestes 500 anos foi preso. Aliás, um ladrão muito incompetente, que teve como resultado do seu assalto um apartamento de classe média e um sítio vagabundo, sem falar nos barcos de alumínio e pedalinhos. Esquecemos D. João VI que saiu com navios lotados de riquezas; esquecemos ACM; esquecemos os militares que ganharam muito; esquecemos Maluf (ah, esse foi preso, depois de 40 anos); esquecemos Lerner (da república de Curitiba); esquecemos.
Tivemos um governo de Temer, que foi muito corrupto, que entregou muitas riquezas para os grandes conglomerados estrangeiros, retirou direitos dos(as) trabalhadores(as), acabou com programas sociais, fez de tudo para aprovar a Reforma da Previdência, congelou as despesas primárias por 20 anos, mas não deixou de pagar 51% da arrecadação para a dívida pública (mercado financeiro), tentou destruir o SUS, incendiou o Museu, atrasou a ciência e tecnologia deste país em muitos anos com corte de verbas. (Temer, o pequeno, merece um texto só pra ele).

Candidatos/as

Difícil escolher por quem começar. Mas vamos lá.

GERALDO ALKMIN
Seguindo de perto a tradição de Maluf, é um quase eterno candidato. Envolvido em esquemas de corrupção não apurados até o fim, foi a aposta do PSDB para substituir o netinho levado do Tancredo (quem não sabe é o Aécio). É um candidato de direita, conservador, preocupado acima de tudo com os ajustes econômicos e a privatização da saúde, educação, etc. Não nos esqueçamos o que fez em parceria com o nanico prefeito de São Paulo quando promoveram a limpeza étnica no centro da cidade.

MARINA SILVA
Costumo chamá-la carinhosamente de “fadinha da floresta”. Apareceu no cenário político por sua luta junto a Chico Mendes, mas de lá para cá muita coisa mudou. Firmou-se como ambientalista, foi ministra do inominável, candidata a vice-presidente, converteu-se a uma religião evangélica, entre outras coisas. É uma candidata de centro, conservadora radical, não muito confiável, vaidosa. Vamos aos fatos. Uma pessoa confiável não muda questões de programa de governo quando o candidato original morre. Uma pessoa confiável não se vira contra companheiros(as) por oportunismo. Uma pessoa pública que respeita o ser humano não deixa de subir no palanque de uma parada gay. Uma pessoa convertida ao cristianismo (mesmo evangélico) não retira do programa de governo questões ligadas à população LGBT, mas uma conservadora sim.

HENRIQUE MEIRELLES
Quem mesmo? Banqueiro, advindo de uma família de políticos que já está fora do cenário há algum tempo, presidente do Banco Central no governo do inominável, ministro de Temer (parece que só a Dilma teve o bom senso de não o colocar no seu governo), executivo do Bank of Boston, da J&F, conselheiro do Conselho Público Olímpico (putz, a convite de Dilma), etc. Um homem de sucesso para os padrões capitalistas. Figura inexpressiva politicamente, preocupado com ajustes econômicos, completamente alheio a questões sociais, não soube de nada dos desvios e superfaturamentos nas obras das Olimpíadas de 2016, se dá bem com qualquer governo desde que sigam seu receituário. É de direita, conservador radical, oportunista e tem tendência a trair no campo político. Chega, já gastei muitos caracteres com este senhor.

CABO DACIOLO
Sem informações relevantes (digo, eu não tenho). Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor. Cri, cri, cri, cri

ÁLVARO DIAS
Bem conhecido no Paraná e na república de Curitiba. Foi governador do Paraná, senador a não sei quantos mandatos.
Das grandes realizações que fez no Paraná, destaca-se mandar a cavalaria para bater, aleijar professores(as). Sua maneira inédita de encerrar uma greve de servidores criou mais um feriado extraoficial no estado: dia 30 de agosto, quando todos os(as) professores(as) param. Além do feriado escolar, sua ação gerou admiradores que repetiram seu feito, com mais requintes, diga-se de passagem (não é Beto Richa?). Seu programa de governo é convidar aquele juiz da lava-jato para ministro da Justiça. É de centro-direita, um conservador flexível (depende de como vai sair na foto), vaidoso e com tendência a trair politicamente (era muito próximo do Requião), oportunista também (Podemos).

JOSÉ MARIA EYMAEL
Segue a tradição de Maluf, eterno candidato. Cri, cri, cri, cri…

GUILHERME BOULOS
Coordenador do MTST, filósofo, psicanalista e professor. Apareceu no cenário político nacional em 2002/2003. Sua atuação e foco estão nas questões sociais, tem um bom discurso (no meu ponto de vista), demonstra ser inteligente e conhecedor das questões que aborda (quando permitem que ele fale, porque nos debates ele foi posto na geladeira). É de esquerda, progressista, voltado para as causas sociais e dos(as) trabalhadores(as). Tem um perfil interessante e espero que contribua muito ainda na cena política do Brasil.

JOÃO AMOEDO
Esportista (participou de 6 Ironman), vaidoso, tem uma fortuna impressionante (tem a mesma idade que eu, que só tenho grandes cifras a pagar). Apresenta-se como bancário, mas é ou foi alto executivo de bancos, ou seja, assim como o outro, é banqueiro. Por isso que eu gosto da meritocracia (ironia). É de direita, conservador flexível e só. Sem mais informações, reafirmo que sou eu que não tenho mais informações.

GOULART FILHO
Além do nome do pai (João Goulart), tenho poucas informações. É de esquerda (?), progressista, tem foco no trabalhismo.

VERA LÚCIA
A candidata do PSTU tem 3 aspectos interessantes: é de origem operária, mulher, negra e substituiu o sempre candidato Zé Maria. Formada em Ciências Sociais. É de esquerda, progressista.

CIRO GOMES
Um político profissional com uma longa carreira no executivo e parlamento. Foi prefeito, governador, deputado, ministro algumas vezes. Profissional do direito, professor, pesquisador, autor de livros. É um homem vaidoso que tem um projeto pessoal que se apresenta como projeto para o país. Algumas vezes destemperado, parece ser autoritário, mas inegavelmente tem boa formação acadêmica. É de centro-esquerda quase direita, conservador flexível. Tem foco nas questões econômicas e também enxerga os problemas sociais e as desigualdades abismais no Brasil. Passou por vários partidos (PDS, PMDB, PSDB, agora PDT). Faz críticas certeiras ao governo Temer, em especial ao congelamento das despesas primárias e ao pagamento da dívida. Aceita a tese da reforma da previdência, parecendo focar nos privilégios. Advoga contra a condenação do inominável, apontando a falta de provas, mas não fala em armação para tirar o PT (Lula, putz falei) da jogada. Em minha opinião, é um candidato propositivo, crítico e tem projeto para o país.

JAIR MESSIAS BOLSONARO
Uma máquina do tempo trouxe este ser do século passado que apregoa planejamento familiar (laqueadura e vasectomia) para os pobres não terem mais filhos; diferença salarial entre homens e mulheres, volta da ditadura militar (empresarial, judiciária, etc), violência na forma de liberação de armas para todos; um ser que chama sua própria filha de fraquejada por ter nascido mulher, que prefere ter um filho morto a um filho gay (mas se ele não gosta de mulher e não as respeita, ele quer um mundo só de homens? e o gay sou eu…ah mas agora existem os GOYs). Para este ser, gay é gay por falta de porrada, ainda que estupidamente fale de ideologia gay. A sua carreira militar podemos resumir neste trecho dito por um coronel seu superior: ” tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”. Quanto ao episódio do plano terrorista de explodir quartéis foi absolvido, porém a perícia da Polícia Federal confirmou que a caligrafia era dele no projeto. Entre outras pérolas deste anacrônico candidato, está a ameaça de estupro que fez a outra parlamentar, ainda em julgamento. É da turma ‘bandido bom é bandido morto”, pessoa de bem, TFP e outras mais.
É de extrema direita, ultraconservador, populista e ao longo de 26 anos de atividade parlamentar trabalhou pouco produzindo projetos e tem apenas 2 aprovados (aliás, um deles por absoluta burrice – o do remédio para o câncer, precisa aprender que droga é sinônimo de remédio). Quanto ao seu desempenho frente ao eleitorado? É um fenômeno mundial a idiotização das pessoas – vide USA e Trump –, por aqui aumenta um pouco a intensidade e falta de educação formal, mas copiamos mais essa do Big Brother: temos um idiota candidato a presidência.

FERNANDO HADDAD (LULA)
Pelas minhas anotações mentais, Haddad é o último candidato a presidente para eu comentar. Demorei um tempo para fazer este post porque aguardei a decisão definitiva do TSE sobre a candidatura de LULA. Agora sou obrigado a usar o nome dele, pois o inominável Voldemort é o Jair – o messias estúpido. Aliás, acho o nome Jair muito estranho, é na verdade um erro de conjugação verbal. Deveria ser Jafoi, Javou, etc., mas Jair é estranho. Deixa-me voltar, o assunto agora é o LULA. Apesar de vivermos numa republiqueta das bananas, eu ainda acreditava que o Lula seria solto e concorreria à Presidência, afinal, inocentaram o Aécio, o Renan, diga-se de passagem, com mais provas do que suposições, gravações de áudio e tudo (inclusive com o Beto Hitler). Bem, mas não foi. O Haddad é um professor de Ciências Políticas da USP e já esteve nos bastidores das administrações do PT, em posições bem relevantes. Começou a ter visibilidade para a população ao ser ministro da educação por 7 ou 8 anos. Foi então meu chefe. Teve uma participação significativa no MEC. Na sua gestão criou os Institutos Federais, sendo o primeiro a Escola Técnica da UFPR, na qual eu trabalhava. Ah, tem um campus avançado em Palmas-PR, cidade onde morei na adolescência. Depois foi prefeito de São Paulo e perdeu a reeleição para o anão de jardim, prefeito fake Dória. Putz, não fui politicamente correto, peço desculpas. Toda a minha solidariedade aos anões de jardim e aos da Branca de Neve. É de centro-esquerda, não é conservador, um acadêmico que parece aceitar a as teses do New Labour Party do Tony Blair, que de uma forma simplista é uma adequação/flexibilização dos princípios dos partidos de trabalhadores para se tornar mais palatável aos olhos e sabores da direita. Isso é mais ou menos a Carta ao Povo Brasileiro, de Lula candidato, que acalmava a direita e se comprometia a ser um governo de conciliação de classes. O que se pode esperar do governo Haddad? Um governo que vai tentar recuperar algumas perdas que a população teve ao longo do governo Temer, o menor. Mas já afirmou que vai fazer a reforma da previdência; talvez seja mais palatável (já usei essa palavra), menos draconiana, mais humanizada, mas ainda assim assume a crença que a previdência é deficitária. Assume essa crença, difundida pela direita, mesmo tendo um senador do PT (Paulo Paim) feito uma CPI que comprovou que a previdência é superavitária.
Como diz o Perna Longa, That’s all Folks!

Por : João Francisco Ricardo Kastner Negrão

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