CRAPUFPR debate impactos do uso da IA no mercado de trabalho e na produção acadêmica 

A inteligência artificial (IA) esteve no centro dos debates na reunião do Conselho de Representantes da APUFPR (CRAPUFPR) na última quinta-feira, 18, em que foram discutidos dois aspectos da avassaladora tecnologia: os impactos sobre os meios de produção e a economia global; e as consequências sobre a produção acadêmica e pesquisas universitárias. Em ambos os casos, os cenários traçados são surpreendentes que provocarão mudanças sociais e de comportamento praticamente inevitáveis. 

O primeiro tema foi tratado pelo filósofo Euclides Mance, um dos principais teóricos da economia solidária e da filosofia da libertação na América Latina. Com passagem pela UFPR como docente, onde obteve o mestrado, é autor de livros fundamentais como A Revolução das Redes (1999), Redes de Colaboração Solidária (2002) e Filosofia da Libertação (2022). Mance atuou como consultor, contratado pela UNESCO e FAO, na formulação e desenvolvimento de ações estruturantes do Programa Fome Zero. 

A segunda palestra foi ministrada pelo diretor da APUFPR-SSind Luis Allan Kunzle, professor aposentado do Departamento de Informática da UFPR. Com graduação em Engenharia Industrial Elétrica, mestrado em Engenharia Elétrica e Informática Industrial, ambos pela UTFPR, e doutorado pela Université Paul Sabatier, em Toulouse, França, fez uma mudança de rota em sua trajetória acadêmica a partir de 2010, quando passou a desenvolver trabalhos e pesquisas em Saúde Coletiva. Associou-se ao Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva da UFPR, com pesquisas em saúde do trabalhador e em assédio moral no trabalho.  

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, TRABALHO E FUTURO 
Ao abordar o estágio atual de desenvolvimento das inteligências artificiais, Euclides Mance destacou que ainda não há consenso sobre a existência de uma chamada “inteligência artificial geral”, capaz de integrar conhecimentos de diferentes áreas de forma semelhante aos seres humanos. No entanto, ressaltou que os sistemas atuais já demonstram capacidade de combinar saberes distintos e solucionar problemas inéditos. 

Ele chamou a atenção para o chamado “problema do alinhamento” das IAs. Segundo ele, um dos principais desafios consiste em garantir que sistemas altamente sofisticados permaneçam compatíveis com os objetivos humanos. “O grande desafio que a gente tem hoje não é mais apenas compreender o que é a IA e o que ela pode fazer, mas decidir, de maneira política, econômica e ética, para quais fins essa inteligência artificial vai ser usada”, afirmou. 

Mance apresentou exemplos de comportamentos inesperados registrados em processos de desenvolvimento de IA, nos quais sistemas buscaram contornar restrições impostas pelos programadores para cumprir objetivos previamente estabelecidos. Os casos ilustram os riscos do chamado “desalinhamento”, quando uma ferramenta produz resultados indesejáveis ou incompatíveis com interesses humanos. 

O impacto da inteligência artificial no mundo do trabalho também foi amplamente discutido. Mance alertou para o aprofundamento da substituição do trabalho humano por sistemas automatizados, processo que pode agravar desigualdades e provocar um colapso do próprio sistema capitalista. “Hoje já é possível mensurar quando se torna mais econômico substituir trabalhadores por robôs, e isso aprofunda ainda mais as contradições do sistema”, observou. 

Como contraponto viável para a humanidade, ele apresentou experiências ligadas à economia solidária, ao uso de software livre e às tecnologias de blockchain como instrumentos capazes de fortalecer formas cooperativas de produção e distribuição da riqueza. Para Mance, esses mecanismos podem contribuir para a construção de modelos econômicos baseados na cooperação e no atendimento das necessidades sociais. 

Também ressaltou a crescente incorporação da IA em tecnologias militares, reforçando a necessidade de controle social sobre essas ferramentas. “Para onde queremos que a IA vá? Qual deve ser o controle da sociedade sobre tudo isso?”, questionou, defendendo que os rumos do desenvolvimento tecnológico devem ser objeto de amplo debate público e de decisão democrática. 

IA E A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO 
Os impactos da inteligência artificial sobre o ensino, a pesquisa e a produção acadêmica foram os tópicos da palestra do professor Luis Allan Kunzle, que reuniu reflexões sobre os desafios éticos, pedagógicos e políticos diante da rápida expansão dessas tecnologias no ambiente universitário. Ele destacou que a tecnologia já se tornou uma realidade irreversível. “Ela está aí e vai continuar. Não há ponto de regresso”, afirmou. Segundo ele, o desafio atual não é impedir seu uso, mas compreender seus efeitos e estabelecer formas democráticas de regulação.

A discussão centrou-se no conceito de “fronteira cognitiva”, entendido como o limite entre aquilo que permanece sob responsabilidade intelectual humana e aquilo que passa a ser delegado às máquinas. Segundo o professor, a IA pode ampliar significativamente a capacidade de produção científica ao assumir tarefas repetitivas, como buscas bibliográficas, sistematização de dados e transcrição de entrevistas, liberando tempo para a reflexão teórica e a elaboração de novos conceitos. 

Por outro lado, alertou para o risco da chamada “erosão cognitiva”. “Quando terceirizamos a redação, a análise e a construção de argumentos, o protagonismo intelectual passa para a IA”, observou. Para ele, esse processo pode resultar em passividade intelectual, redução da capacidade crítica e dificuldades crescentes de leitura, interpretação e argumentação entre estudantes. 

Dados recentes apresentados durante a palestra revelam a dimensão do fenômeno: pesquisa realizada com 1,2 mil estudantes de universidades europeias mostrou que 78% já utilizam ferramentas de inteligência artificial em suas atividades acadêmicas, enquanto 72% dos docentes demonstram preocupação com os impactos dessa transformação. 

Entre as potencialidades apontadas, destacam-se a oferta de tutoria personalizada, o apoio à aprendizagem, a ampliação da acessibilidade e a identificação de padrões complexos em grandes bases de dados científicos. O palestrante relatou, inclusive, experiências em que sistemas de IA produziram demonstrações matemáticas originais, abrindo novas possibilidades para a pesquisa científica. 

Ao mesmo tempo, foram destacados problemas relacionados aos vieses presentes nos sistemas, predominantemente desenvolvidos e treinados a partir de perspectivas do Norte global. “Temos uma base de dados marcada por determinados paradigmas sociais e epistemológicos que não necessariamente correspondem às nossas realidades”, alertou. 

Outro desafio apontado refere-se à opacidade dos algoritmos. Segundo o expositor, os sistemas atuais operam como verdadeiras “caixas-pretas”, tornando cada vez mais difícil compreender como determinadas respostas são produzidas ou rastrear os caminhos percorridos pela inteligência artificial na tomada de decisões. 

No campo da docência, a palestra ressaltou que os métodos tradicionais de avaliação tendem a perder eficácia diante da disseminação dessas ferramentas. Para o palestrante, será necessário construir novas estratégias pedagógicas, centradas no debate, na problematização e no desenvolvimento do pensamento crítico. 

Como horizonte, defendeu a construção de uma cultura de letramento crítico em inteligência artificial, baseada na capacidade de questionar dados, identificar vieses e compreender os limites dos algoritmos. “O papel do educador permanece insubstituível no processo formativo”, destacou. 

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