
O Brasil insiste em chamar de data comemorativa o que deveria ser, antes de tudo, um dia de balanço crítico e compromisso político. O 19 de abril, Dia da Resistência dos Povos Originários, não é ocasião para folclore ou encenação. É momento de enfrentar uma realidade que permanece brutal.
Antes da invasão portuguesa à Pindorama, mais de mil povos conviviam neste território com diversidades linguísticas e socioculturais exuberantes. O que se seguiu foi um processo sistemático de genocídio, expropriação forçada e tentativa de apagamento cultural que dura mais de cinco séculos e que o Estado brasileiro, em diferentes momentos de sua história, ora ignorou, ora incentivou ativamente.
O presente não é menos grave. O ano de 2024 foi o primeiro sob a vigência da Lei 14.701/2023, a chamada “Lei do Marco Temporal”, que fragilizou os direitos territoriais dos povos originários e cuja constitucionalidade ainda se encontra em debate no STF, gerando insegurança jurídica e fomentando conflitos e ataques contra comunidades indígenas em todas as regiões do país. O resultado foi imediato: foram registrados 1.768 conflitos por terra no campo em 2024, o maior número da última década com os povos indígenas concentrando 29% das vítimas diretas de violência por terra.
A conjuntura de 2025 foi marcada pela consolidação de forças políticas alinhadas ao agronegócio e à mineração, com uma agenda legislativa que opera em favor da flexibilização ambiental e da relativização dos direitos territoriais indígenas, posicionando os povos originários sistematicamente como obstáculos ao desenvolvimento. Essa lógica não é nova, é a mesma que justificou o genocídio colonial reembalada em linguagem parlamentar.
A Universidade pública não está alheia a essa disputa. Quem defende a Univerisadade pública defende também o direito à terra, à cultura e à vida dos povos que habitam este território há milênios. As demandas dos povos indígenas abrangem saúde, educação, assistência social, habitação e, fundamentalmente, a proteção territorial, pautas que se conectam diretamente ao projeto de país que a APUFPR-SSind defende.
Neste 19 de abril, nossa solidariedade é ativa.
Demarcação já! Fora, Marco Temporal! Viva os povos originários!
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(Foto: Divulgação. Sonia Guajajara, ex-ministra dos Povos Indígenas, em manifestação com bandeira do Brasil ensanguentada.)
