“Dalton Trevisan, nosso vampiro favorito” foi tema de palestra em Encontro de Aposentados/as da APUFPR-SSind  

O escritor Dalton Trevisan foi o homenageado no Encontro de Aposentados/as da APUFPR-SSind desta quarta-feira, 29, no auditório da Seção Sindical, com a apresentação de uma palestra da professora Raquel Illescas Bueno, aposentada pelo Departamento de Literatura e Linguística da UFPR. O evento foi programado como parte das comemorações do centenário de nascimento do escritor paranaense.  

Com o instigante título “Dalton Trevisan, nosso vampiro favorito”, a professora abordou na palestra aspectos do comportamento e curiosidades da trajetória, a riqueza literária da obra e a relação sempre provocadora do escritor com Curitiba, onde morou a vida toda. O contista maior da literatura brasileira faleceu em dezembro passado, seis meses antes de completar 100 anos de idade.  

Embora conhecido pela reclusão e total discrição em vida, logo de início, a professora destacou que surpreendentemente toda a sua obra, incluindo ensaios e escritos pessoais, como diários e cópias de textos sucessivamente editados, encontra-se documentada e será devidamente preservada pelo Instituto Moreira Salles, de São Paulo, conforme acertado pelo próprio Dalton antes de sua morte.  

A professora recomendou ainda o vídeo “O arquivo de Dalton Trevisan” produzido pelo mesmo centro cultural paulistano, vinculado à família proprietária do Banco Itaú. O vídeo de 11min15seg reproduz uma entrevista com a principal responsável pela organização e preservação dos acervos e da produção literária do escritor, a assessora, revisora e escritora Fabiana Faversani, que trabalhou diretamente com o autor nos últimos anos. 

Para ver o vídeo “O arquivo de Dalton Trevisan”, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=mmu7JHJBTek  

“Dalton era um homem extremamente discreto. Viveu para a literatura, pela literatura. Viveu enfurnado entre livros, escrevendo todos os dias”, descreveu Raquel Bueno. Para ela, o comportamento recluso foi mantido intencionalmente ao longo da vida como forma de “esconder o escritor” para dar visibilidade apenas à sua literatura, tendo logrado êxito nas décadas de 1960 e 1970, quando passou a ser traduzido e publicado mundialmente.  

Ao tratar sobre as temáticas dos livros que escreveu até próximo aos últimos dias de vida, a professora destacou o erotismo como “o universo número um” de Dalton. “Chegou a ser considerado pornográfico”, lembrou, ao se referir ao cotidiano mundano das personagens que, na concisão e simplicidade dos textos, revelavam estruturas psicológicas complexas que desaguavam em desvios, que, se antes eram admitidos, hoje seriam condenados e criminalizados. 

“Mudamos nós, mudou a cabeça dos jovens, mudou muita coisa ao longo do tempo, com muita consistência. Dalton escrevia sobre assassinatos da guerra conjugal, sobre a homossexualidade sem meias palavras numa época em que não existia o divórcio e o feminicídio não era tipificado criminalmente”, refletiu.  

Outro “universo” recorrentemente abordado por Dalton era Curitiba, que tratava, segundo a professora, de modo “irreverente, sarcástico e anticonvencional”. “A Curitiba dele não estava nos holofotes”, definiu. Um de seus mais célebres contos sobre a cidade foi “Em busca de Curitiba perdida”, publicado pela primeira vez no jornal “Joaquim”, do qual foi fundador e editor de 1946 a 1948. 

Desde aquela época, a ácida crítica ao comportamento provinciano e elitista dos moradores de Curitiba perpassou pela sua obra. “Dalton combatia a Curitiba de Emiliano Perneta e de Alfredo Andersen porque preferia privilegiar a arte contemporânea produzida por artistas como Poty Lazzarotto e Guido Viaro”, explicou ela. Embora referindo-se a locais, pessoas e características específicas da cidade, a universalidade da linguagem de Dalton não dá margem para quaisquer interpretações bairristas.

 

Outro “universo” descrito por Dalton – e que lhe rendeu fama – foi o da figura do vampiro. “O vampiro não consegue morrer, mas não consegue parar de morder e fazer outros vampiros”, afirma. “O mote da criação dessa personagem cafajeste culpa as mulheres pela sua própria danação”, define Raquel Bueno, o que, mais uma vez, pode ser visto atualmente como politicamente incorreto e “digno de cancelamento”. 

Mas Dalton deu vida a personagens imortais, como um vampiro. O retraído e desajeitado Nelsinho, por exemplo, era capaz de atrocidades inimagináveis, que eram (e ainda são) retratados cotidianamente nas páginas dos jornais (e de blogs, na atualidade). “O que Dalton fazia era chupar uma linguagem e injetar em outro contexto para provocar o leitor”, diz a professora. “Dalton vampirizava notícias e clichês para transformar em literatura”. 

Da juventude de Dalton, Raquel Bueno destacou a sua participação como criador e editor durante três anos do jornal “Joaquim”, uma das mais importantes publicações culturais do país da segunda metade dos anos de 1940. Dentre seus leitores assíduos, ela citou Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. “Foi um periódico muito importante porque ele renovou as artes plásticas e trazia as informações atualizadas sobre as exposições do mundo”. 

A ligação de Dalton com as artes também se refletia em seu hábito como cinéfilo e grande entendedor da história do cinema. De acordo com relatos de seus poucos convivas, o escritor era fã incondicional dos faroestes dos anos de 1940 e 50, costumando ir aos cinemas ou assistir a filmes em casa praticamente durante todas as tardes.  

A grande notícia é que em breve deveremos ser brindados com uma biografia de Dalton Trevisan escrita pelo jornalista e escritor Christian Schwartz, de Curitiba, que teve como fontes de pesquisa 31 cadernos de diários, que datam de 1959 até o início dos anos de 2000, e mais de 2.300 cartas, manuscritos e bilhetes. O biógrafo também conferiu cerca de 3 mil páginas de diários datilografados. 

JURÍDICO – Além da palestra da professora Raquel Bueno, o Encontro de Aposentado/as contou com a participação on-line da assessora jurídica da APUFPR-SSind Juliana Portes, vinculada ao escritório Trindade & Arzeno, que apresentou atualizações sobre questões de aposentadoria, em especial, relativas ao reposicionamento na carreira funcional para efeito de ação coletiva. 

INFORMES – Logo no começo da reunião, foram dados alguns informes. Os principais foram: 

  1. Realização do almoço e do jantar de confraternização em comemoração ao Dia das Professoras e dos Professores, no último dia 17 de outubro, que contou com grande presença de docentes e familiares lotando os salões do Restaurante Madalosso; 
  1. Participação da diretoria no ato de lançamento da Frente em Defesa das Licenciaturas no dia 15 de outubro, nas escadarias do prédio histórico da UFPR. Nova reunião da Frente está marcada para 06 novembro, quando será discutida a organização de um seminário no final do mês.  
  1. Agenda de reunião marcada para o início de novembro com o reitor Marcos Sfair Sunye e representantes da Progepe para continuidade de discussão acerca da pauta reivindicatória da APUFPR-SSind.  
  1. Organização de caravana para a Marcha Unificada Nacional do Serviço Público contra a Reforma Administrativa, em Brasília, que acontecia naquele mesmo dia (29 de outubro). 
  1. Relato da participação da professora Maria Suely em reunião nacional do GT de Seguridade Social e Assuntos de Aposentadoria (GTSSA), realizada em Brasília. 

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