
A Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná – Seção Sindical do ANDES-SN (APUFPR-SSind), o Conselho de Representantes (CRAPUFPR) e a Assembleia Geral Docente vêm a público manifestar profunda preocupação e repúdio ao pedido encaminhado pela Direção do Setor de Ciências Agrárias da UFPR ao Instituto Água e Terra (IAT), solicitando a flexibilização do uso de agrotóxicos na Área de Proteção Ambiental (APA) do Iraí.
Localizada em uma região de extrema importância ecológica e responsável por parte significativa do abastecimento hídrico da Região Metropolitana de Curitiba, a APA do Iraí foi instituída com a finalidade de preservar os recursos hídricos, a biodiversidade e o equilíbrio ambiental, sendo reconhecida como uma das áreas estratégicas de proteção da vida no estado do Paraná. A Fazenda Canguiri, pertencente à UFPR, está inserida nessa APA, e há mais de duas décadas mantém práticas agrícolas livres de agrotóxicos, constituindo-se em exemplo nacional de produção sustentável e ecologicamente responsável.
O pedido de autorização do uso de agrotóxicos na Fazenda Canguiri, formulado pela Direção do Setor de Ciências Agrárias da UFPR, representa um grave retrocesso, colidindo com o esforço coletivo, científico e social de proteção ambiental, e contrariando a própria missão pública da Universidade Federal do Paraná, que deve estar comprometida com o avanço da ciência e com a defesa da vida, da saúde e do meio ambiente.
Historicamente, a comunidade científica tem alertado sobre os riscos e danos provocados pelos agrotóxicos à saúde humana, à fauna, à flora e aos recursos hídricos. Segundo o Atlas dos Agrotóxicos 2024, publicado pela Fundação Heinrich Böll, o Brasil é o maior consumidor mundial dessas substâncias, com mais de 720 mil toneladas comercializadas anualmente — número que corresponde a cerca de 20% de todo o consumo mundial. Seis dos dez agrotóxicos mais utilizados no país são proibidos na União Europeia, em razão de sua comprovada toxicidade para humanos e animais.
O impacto do uso intensivo dessas substâncias é devastador: estima-se que, a cada ano, mais de 385 milhões de pessoas sejam contaminadas por agrotóxicos no mundo, gerando custos sociais e ambientais incalculáveis. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que os casos de intoxicação por agrotóxicos cresceram mais de 150% na última década, atingindo especialmente trabalhadores rurais e comunidades vizinhas a áreas de cultivo intensivo.
A luta contra os agrotóxicos é, portanto, uma luta em defesa da vida. A APA do Iraí, livre há 23 anos de contaminação por agrotóxicos, simboliza a possibilidade real de uma agricultura sustentável e saudável. O evento “APA do Iraí, 23 anos livre de agrotóxicos”, promovido recentemente pela APUFPR, reafirmou o compromisso da comunidade acadêmica e científica com a defesa do meio ambiente, da saúde coletiva e da soberania alimentar.
O grande desafio da sociedade contemporânea é descontaminar o que já foi poluído nas últimas décadas, e não contaminar o que ainda permanece incólume. A Universidade Pública, por sua vez, deve ser o exemplo de resistência à lógica predatória do agronegócio, investindo em pesquisa, inovação e extensão voltadas ao desenvolvimento de tecnologias e métodos produtivos que respeitem a vida, o solo e a água.
A APUFPR-SSind, o CRAPUFPR e a Assembleia Geral da categoria docente reafirmam seu compromisso histórico com a defesa intransigente da educação pública, da ciência e da sustentabilidade, conclamando a comunidade universitária e a sociedade civil a resistirem a toda e qualquer iniciativa que represente retrocesso ambiental.
Curitiba, 09 de outubro de 2025.
Diretoria da APUFPR-SSIND
Conselho de Representantes da APUFPR
Assembleia Geral Docente da APUFPR
