
A reunião do CRAPUFPR na última terça-feira, 10, no auditório da APUFPR, em Curitiba, foi enriquecida com uma palestra esclarecedora da secretária Educacional da APP-Sindicato, professora Vanda Bandeira Santana, a respeito da imposição e impactos da plataformização do ensino na rede estadual de educação. A professora é uma referência nos estudos da política educacional do Paraná desde 2020.
Com dados contundentes sobre os impactos e distorções causados na educação de adolescentes e jovens, ela explicou que a prática tem como principal objetivo uma formação voltada para o mercado e resultados em avaliações como as que compõem o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Ela chamou a atenção dos/as docentes presentes para o ingresso desses estudantes na graduação universitária com esse novo tipo de formação.
Para a professora, a plataformização nada tem a ver com avanços na metodologia pedagógica por meio da incorporação da tecnologia ou de propostas inovadoras. Ao contrário, trata-se de uma ação política de cunho neoliberal que ataca a educação pública, gratuita e de qualidade por meio do desmonte da gestão democrática e participativa. “A plataformização faz parte de um projeto político de concepção de Estado”, afirmou.
Segundo ela, a ofensiva neoliberal teve início com a ascensão da extrema-direita com a eleição do governador Ratinho Junior (PSD), em 2018, tendo como principal executor o então secretário de Estado da Educação, Renato Feder. Todo o planejamento estratégico da organização da gestão administrativa, de pessoal e pedagógica ocorreu por meio de parcerias público-privadas milionárias com empresas e fundações, como a Fundação Lemann.
A pandemia foi a “grande oportunidade” para a implantação dessas novas estratégias, inserindo no cotidiano das escolas as tecnologias digitais, a plataformização e a inteligência artificial. Nesse momento, começaram as interferências nas estruturas de gestão, com a incorporação de técnicos e consultores dessas empresas e fundações. “Esses agentes passaram a dar o direcionamento das políticas públicas da Secretaria de Educação”, afirmou.
Desde o início, o foco da plataformização tem sido melhorar o índice do Ideb, tendo como finalidade alcançar notas cada vez mais elevadas como forma de alimentar o título de “melhor educação do país”. O método, porém, passou a ignorar o planejamento curricular. Todos os procedimentos a serem seguidos em sala de aula foram construídos a partir dos dados do Ideb. As avaliações bimestrais, por exemplo, foram substituídas por avaliações trimestrais como forma de otimização e controle do tempo.
Dessa forma, a plataformização visa a produtividade por meio de operações no processo escolar, sem preocupação pedagógica, apenas para manipular os índices de acesso, permanência e conclusão de estudos na idade adequada. Somente as disciplinas de Português e Matemática – as únicas avaliadas nas provas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de forma censitária – ganharam grande peso nas horas de aula.
Enquanto isso, as demais matérias, como História, Geografia, Sociologia, Filosofia, Artes e Educação Física, passaram a ser menosprezadas em sala de aula. Com isso, a plataformização passou a privilegiar a padronização do currículo e do tempo escolar, sem levar em consideração a realidade, classe social ou estágio de aprendizado do estudante.
O principal instrumento de “controle” das escolas é a plataforma da Microsoft “Power BI” (Poder de Inteligência de Negócios), que monitora dados de frequência dos estudantes e dos profissionais, dos conteúdos ministrados, do uso das plataformas educacionais e das ações pedagógicas das escolas, principalmente da avaliação. “Tudo, tudo, tudo é controlado em tempo real”, afirmou Vanda.
Além de provocar mudanças radicais em sala de aula, a plataformização tem alterado também as relações sociais. “Está acontecendo um acelerado distanciamento entre escola e comunidade”, explicou. Segundo ela, os pais não precisam mais ir às escolas. “Hoje é muito difícil fazer uma reunião de pais e professores”, disse. Para reforçar esse distanciamento, Ratinho Junior tem lançado mão de diversas interferências na gestão das escolas.
Daí, as crescentes experiências como a militarização e a privatização de escolas, a restrição de eleições para diretores/as e a terceirização de professores/as e funcionários/as da educação. Atualmente, menos da metade das cerca de 1.100 escolas estaduais tem os/as diretores/as eleitos/as pela comunidade. Para piorar a situação, cada Núcleo Regional da Educação possui uma equipe de tutores que “fiscalizam” os dados de todas as escolas de forma on-line.
O cumprimento das metas determinadas pela Secretaria de Educação é assegurado por um “sistema de vigilância” que resulta na aplicação de punição ou bonificação para a direção, docentes e demais servidores das escolas. O trabalho sob alta pressão tem levado a um quadro generalizado de adoecimentos do corpo docente da rede de educação do Paraná.
Estima-se que cerca de 9.000 professores/as, de um universo de 70 mil, foram afastados/as em 2024 para tratamento de saúde. E, pior, neste ano, duas professoras faleceram de infarto no ambiente escolar, em Curitiba. Para a professora Vanda, diante desse cenário, é preciso um aprofundamento das discussões sobre o futuro da qualidade educacional e da plataformização.
“Hoje, nós estamos com um desafio muito grande que é o de fazer com que a educação continue pública, de qualidade, democrática e emancipadora”, afirmou a professora. Por isso, ela destacou a importância de encontros entre docentes da educação básica e da graduação como o promovido pelo CRAPUFPR. “É preciso que a gente, em conjunto, pense em alternativas para resistir, mas, principalmente, para superar esse modelo de aprofundamento neoliberal da nossa escola pública”, completou.
DEMAIS DISCUSSÕES DO CRAPUFPR
Além da palestra da professora Vanda Bandeira Santana, o CRAPUFPR deliberou o encaminhamento de uma moção ao Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) solicitando a composição de uma comissão para estudar a correção das Resoluções 12/2025 e 13/2025 que alteraram recentemente as formas de progressão de docentes da UFPR.
O CRAPUFPR também decidiu assinar, junto com a diretoria da APUFPR, a Nota de Repúdio sobre a ação da Polícia Militar do Paraná (PM-PR) no último dia 9 de setembro, quando invadiu o prédio histórico da UFPR, na praça Santos Andrades, em Curitiba, utilizando balas de borracha, bombas de efeito moral e truculência física para reprimir estudantes que protestavam contra a realização de uma palestra da extrema-direita.
O Tesoureiro Geral da APUFPR, professor Francisco de Assis Marques, apresentou ainda um breve relatório sobre o desempenho contábil dos primeiros três meses da atual gestão. Já o diretor do ANDES-SN, professor Herrmann Muller, relatou sobre o andamento das negociações da Reforma Administrativa e do Acordo de Greve de 2024 em âmbito nacional.
