
A Libras não é um recurso auxiliar de comunicação. É uma língua completa, com gramática, sintaxe, estrutura própria e uma comunidade que a vive como expressão de identidade e cultura. Tratá-la como mero instrumento de acessibilidade é não compreender o seu alcance e poder de transformação.
A primeira expressão institucional da língua de sinais no Brasil se deu em 1856, quando o professor surdo francês Eduard Huet fundou, no Rio de Janeiro, o Colégio Nacional para Surdos-Mudos, que se transformaria no atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). A língua de sinais foi o meio de instrução nas salas de aula até 1911, quando um Decreto impôs o oralismo à educação de surdos. Por décadas, a língua foi proibida, marginalizada e tratada como obstáculo, não como direito.
Somente em 2002, pela Lei 10.436, a Libras foi reconhecida como meio legal de comunicação e expressão da comunidade surda no Brasil. A regulamentação viria apenas em 2005, com o Decreto 5.626, que tornou obrigatória sua inclusão na formação de professores, pedagogos e fonoaudiólogos. O dia 24 de abril marca essa conquista, arrancada por décadas de mobilização da comunidade surda, não concedida espontaneamente pelo Estado.
O reconhecimento legal, porém, não dissolve automaticamente as barreiras. Ainda há inúmeros desafios na educação de pessoas surdas, na naturalização do uso da Libras nos espaços públicos e privados, na inserção ao mercado de trabalho e na garantia de atendimento de saúde acessível. A inclusão de verdade exige estrutura, investimento e vontade política.
Na UFPR, o Núcleo de Ensino de Libras (NEL) atua desde 2016 com atividades de extensão voltadas ao ensino de Libras, sem fins lucrativos, vinculado ao curso de Letras Libras, abrindo anualmente turmas gratuitas nos níveis básico, intermediário e avançado para a comunidade em geral. Além disso, a UFPR oferece a Licenciatura em Letras Libras, com vagas reservadas tanto para pessoas surdas, quanto para ouvintes, formando docentes capazes de ensinar a língua e ampliar a sua presença nas escolas.
A APUFPR-SSind reafirma, neste 24 de abril, seu compromisso com uma Universidade que seja de fato para todas e todos. Quem defende a Universidade pública defende também o direito das pessoas surdas de aprender, trabalhar e existir plenamente em sua própria língua.
Libras é língua. Inclusão é direito.
