Por Letícia Villar Pellegrin

O aumento do número de casos de transtornos mentais, relacionados ou não relacionados ao trabalho, é um grande desafio para a sociedade atual. Para enfrentá-lo, esforços coletivos e efetivos precisam ser adotados. Visando contribuir com orientações práticas nesse sentido, a Organização Mundial da Saúde publicou as “Diretrizes da OMS sobre saúde mental no trabalho”[1]. Dirigido aos governos, empregadores e demais públicos de interesse, o documento fornece recomendações baseadas em evidências sobre intervenções que podem ser implementadas para melhor prevenir, proteger e promover e apoiar a saúde mental no trabalho. De forma complementar, a Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho desenvolveram conjuntamente um resumo com o intuito de fornecer uma estrutura objetiva para implementação das referidas diretrizes[2].
Para os empregadores, no âmbito da prevenção, a publicação recomenda que as estratégias organizacionais devem ser priorizadas, por meio da gestão dos riscos psicossociais no trabalho. A ideia é que os ambientes de trabalho sejam reformulados a partir da identificação dos riscos psicossociais aos quais os trabalhadores estão expostos, da mesma forma como se deve proceder em relação aos demais riscos ocupacionais, visando sua mitigação. Tal estratégia é fundamental para evitar que o trabalhador fique exposto a agentes estressores e possa desenvolver problemas de saúde mental ou agravar condições já existentes. Cabe ressaltar que a participação dos trabalhadores e de seus representantes é fundamental na avaliação e gestão dos riscos psicossociais no trabalho para a efetividade do processo.
A proteção e promoção, de acordo com as diretrizes, consiste em fortalecer a conscientização, as habilidades e as oportunidades para reconhecer e agir precocemente em questões de saúde mental, contemplando as formações de gestores (de todos os níveis hierárquicos) e de trabalhadores para saúde mental, bem como intervenções individuais. Nesta seção, para mencionar alguns exemplos citados nas orientações aos empregadores, sugere-se a formação de gestores sobre as características do trabalho potencialmente perigosas para a saúde mental dos trabalhadores e sobre o seu papel na prevenção destes riscos. Os treinamentos precisam possibilitar também o desenvolvimento de habilidades de gestão interpessoal, comunicação assertiva, escuta ativa e facilitação de uma cultura inclusiva e solidária nos espaços de trabalho. Além disso, os gestores precisam ser instrumentalizados a fim de reconhecerem e apoiarem satisfatoriamente os trabalhadores que apresentarem condições de saúde mental, inclusive na reintegração destes após um eventual afastamento por saúde. Direcionados aos trabalhadores, os treinamentos em saúde mental devem buscar melhorar a compreensão sobre saúde mental e bem-estar no trabalho, promover mudanças de atitudes para diminuição do estigma em torno do tema e incentivar que busquem ajuda em caso de sofrimento. As intervenções individuais, por sua vez, têm como foco o desenvolvimento de habilidades para gestão do estresse e a diminuição de sintomas relacionados à condições de saúde mental.
Em relação às medidas de apoio, a publicação recomenda que os empregadores forneçam suporte aos trabalhadores com problemas de saúde mental, para que tenham acesso, permaneçam e prosperem no trabalho. As intervenções esperadas contemplam a adaptação dos ambientes de trabalho para corresponder às capacidades, preferências e necessidades do trabalhador individual, visando reduzir as barreiras que este possa enfrentar por apresentar alguma condição de saúde mental. Entre os exemplos de ações práticas mencionadas, estão a flexibilização de horários, aumento de prazos para conclusão de tarefas, tempo livre para cuidados com a saúde mental, reuniões regulares de apoio com supervisores e ajustes de funções para evitar elementos estressores. Em relação a retorno ao trabalho após afastamento por problemas de saúde mental, as sugestões abrangem a realização de adaptações no ambiente de acordo com a necessidade de cada caso, a reinserção gradual no trabalho e os cuidados clínicos. Também são indicadas ações de emprego apoiado, direcionadas às pessoas com graves condições de saúde mental.
O breve resumo apresentado demonstra que a abordagem em saúde mental no trabalho precisa considerar e intervir na complexidade dos fatores envolvidos em sua determinação. O tema deve ser considerado pela alta gestão e incorporado na estratégia das organizações. Palestras isoladas, ações pontuais de bem-estar e o simples afastamento de trabalhadores adoecidos, por exemplo, não são suficientes. É necessário ir além a fim de evitar o adoecimento mental relacionado ou agravado pelo trabalho, assim como para apoiar verdadeiramente o trabalhador que apresenta uma condição de saúde mental a continuar desempenhando suas atividades laborais. E, como visto, já não faltam subsídios para fundamentar discussões qualificadas e ações efetivas imediatas por parte dos empregadores nesse sentido.
[1] WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO guidelines on mental health at work. Geneva: World Health Organization, 2022.
[2] WORLD HEALTH ORGANIZATION; INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. Mental health at work: Policy brief. Geneva: World Health Organization and International Labour Organization, 2022.
