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7 de março de 2022

Guerra à guerra!

Neste momento, ainda não sabemos com certeza as consequências da invasão militar russa na Ucrânia. No entanto, na medida em que é resultado de movimentos e contra movimentos que vêm sendo realizados pela Rússia e pelos países da OTAN sob influência direta dos EUA (desde 1949 a geopolítica americana foi a de conter a URSS, mas com a desintegração desta a OTAN permaneceu como expressão do poder global dos EUA e nesta medida como seu braço armado), a invasão não apenas pode indicar que os russos — cada vez mais ameaçados em seu entorno regional e, segundo eles próprios dizem, em defesa de Luhansk e Donetsk, regiões pró-Rússia e que se declararam independentes de Kiev em 2014 — buscam efetivamente um novo reordenamento do sistema de governança internacional (que inclusive acomode os interesses de seus oligarcas financeiros, cabe anotar), traz também a possibilidade de uma guerra de grandes proporções. Nesse sentido, o senador Bernie Sanders após considerar uma hipocrisia americana não aceitar o princípio das “esferas de influência”, pois com base na doutrina Monroe “derrubamos pelo menos uma dúzia de governos”, expressou preocupações com as “batidas familiares dos tambores em Washington” e advertiu que talvez todos nós tenhamos que enfrentar a “pior guerra europeia em mais de 75 anos”.

Daí o título da moção que propomos Guerra à guerra, uma velha palavra de ordem que deveríamos desde já abraçar, pois não é surpreendente que continue sendo o nó górdio da política. Sim, na história real, o papel principal foi e ainda é desempenhado pela conquista, pela subjugação, pelo roubo com morte, em suma, pela violência. Aprendemos que os métodos da acumulação primitiva nunca foram idílicos e tampouco os da acumulação capitalista. E não nos enganamos: a guerra é a política por outros meios. Assim quando Biden, Putin e outros senhores da guerra (como Zelensky, ainda que um peão no tabuleiro) decidem provocá-la é contra a ampla maioria dos cidadãos que ela será feita. Os setores populares e os trabalhadores, já vilmente garroteados, serão os mais atingidos pelas perversas consequências da guerra, mesmo os que estão longe dos combates. Sendo assim, nós, professores, pesquisadores, trabalhadores do ensino superior público, se não podemos ignorar a geopolítica tampouco podemos nos esquecer que a guerra hoje, mesmo com a alardeada precisão de suas armas guiadas, tecnologicamente limpas, ainda é força destrutiva cega. Vidas humanas são aniquiladas ou ficam estropiadas. E florescem dividendos! Em sua maior parte, provenientes da indústria de armamentos, de arsenais bélicos, de gastos militares e com vigilância/segurança.

Para a nossa melhor compreensão do imbróglio como um todo, importa chamar a atenção para a crise dos primeiros anos da década de 1970, crise esta que bem sinaliza os limites lógicos do capital. E não se demora muito para perceber que o ciclo de transformação do valor em mais valor entra em colapso, que de maneira estrutural está sendo minado o processo de valorização, o processo de produzir mais valor.

Em outros termos, o desemprego e a precarização afastam cada vez mais da esfera da produção a força de trabalho que cria o mais valor. Não só: cada novo patamar de produtividade precisa de menos trabalho vivo e para uma quantidade maior de riqueza material! Nesta lógica e devido a sua contradição interna o capitalismo em crise não pode se reestruturar senão num regime de acumulação baseado no capital fictício, isto é, no adiantamento de uma produção futura de mais valor, na antecipação, portanto, do futuro trabalho abstrato, ou seja, o dispêndio de cérebro, de nervos, de músculos, de sangue, de mãos futuros.

Uma antecipação futura que no fim das contas nunca vai se realizar devido à contradição interna apontada e a exigência extenuante de produtividade. Não à toa o “depois de mim, o dilúvio” continua o lema de todo capitalista e de toda nação capitalista. Mais ainda: a crise de valorização traz como consequência também a crise do Estado, dificulta a sua legitimação, suas condições de intervenção e muito mais (a associação entre Estado e milícia não seria um dos resultados desse processo de desmoronamento estatal?).

Tampouco seria deslocado imaginar que os cleptocratas russo-ucranianos que simplesmente se apropriaram da infraestrutura que restava da URSS (infraestrutura que muito provavelmente na Rússia pós-soviética esteve na pauta dos “aconselhamentos” de economistas indicados pelo FMI e pelo Banco Mundial, ou seja, pelos EUA que influenciam diretamente esses organismos) -, são uma espécie de retorno do reprimido do capital! Como criaturas do capital, agora eles querem a sua fatia do que vai restar do mundo depois de destruído pelo próprio capital. E também não é por acaso que por aqui um significativo percentual de brasileiros já não espera de seus dias mais do que não morrer assassinado pela polícia. A guerra, nesse contexto de desigualdades extremas, e com a pandemia ainda não completamente controlada, trará com certeza consequências devastadoras.

E não é demasiado acrescentar que se o capital não mais se reproduz sem avançar sobre direitos, com a guerra esta acumulação por expropriação/despossessão tende a aumentar e a ser justificada pela urgência de esforços bélicos que devem ser pagos, é claro, com o sacrifício de todos! Sendo assim, propomos que a Apufpr e todas as demais sessões sindicais da Andes presentes em seu 40° Congresso, chamem os estudantes, os servidores públicos, a sociedade civil, os sindicatos, os movimentos sociais e populares, os coletivos de mulheres pretas, os movimentos negros, e, assumindo-se como expressões de uma cultura de oposição e resistência, proclamem e discutam como implementar a guerra à guerra, sobretudo como interromper a sua marcha, como parar com a guerra! Nossas causas, — intransigentemente republicanas, transparentes, sem segredos –, não nos permitem neste momento optar por nenhum dos campos militares. Não consideramos “justa” esta guerra, não nos identificamos nem com o imperialismo norte americano e seu rastro de ruinas, nem com a OTAN e seu bloqueio geopolítico e nem tampouco com a invasão russa!

Se admitíssemos que Putin cercado por quase todos os lados tem geopoliticamente suas razões (longinquamente herdadas de Pedro e de Catarina, ambos Grandes, diretamente decorrentes da desintegração da URSS) e que sua vitória estratégica até poderia reequilibrar um pouco o cenário politico internacional –, ao invadir militarmente a Ucrânia não apenas perdeu apoios, perdeu as suas razões! E perdê-las, perdoem o nosso truísmo, diante dos efeitos terríveis da guerra, não é pouco!

Com a moção não dissemos simplesmente “entre dois males, nenhum”. Levantamos também questões polêmicas. Por isso, se não for pretensioso, ousamos sugeri-la para iniciar a discussão aqui na Apufpr-SSind.

Por ultimo, num pós cessar fogo — ainda muito distante, pois o pior e o muito pior ainda estão por vir — não cabe evidentemente voltar ao status quo, voltar ao “normal”, não podemos nos contentar que tudo permaneça como estava: para a maioria da população brasileira, para maioria da humanidade, a exceção tem sido a regra. Que as ADs então no mínimo possam também se manter como centros de debates, prioritariamente voltados a pensar e a transformar o Brasil e o mundo.

Abraços.

Emmanuel Appel

(com agradecimentos aos que nos dias seguintes a assembleia acompanharam a conjuntura e enviaram suas observações).


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