Reitores-interventores se desligam da Andifes, associação que reúne dirigentes das federais

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Desde que assumiu a presidência, Jair Bolsonaro já nomeou 19 reitores de universidades federais que não estavam entre os mais votados nas eleições feitas pelas instituições. Cinco desses “interventores”, como são conhecidos por assumirem o cargo mesmo não sendo escolhidos por suas comunidades acadêmicas, anunciaram seu rompimento com a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

Sob a justificativa de não serem “aceitos e acolhidos” na Andifes por serem defensores do Governo Federal, desligaram-se da associação os reitores da Universidade Federal do Ceará (UFC), da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Não se sabe se outros interventores seguirão o mesmo. Quem sabe não planejam criar um clube só de dirigentes golpistas.

O que é a Andifes

Fundada em 1989, a Andifes tem como bandeira principal a defesa da educação pública e da democracia. Além dos cinco agora ex-integrantes, a entidade conta com outros 65 reitores de instituições federais de ensino superior.

Sua função é articular os reitores para implementar as demandas trazidas pelos integrantes de suas universidades. A Andifes permite que haja diálogo entre as pautas das universidades federais e outros grupos atuantes na educação, como os sindicatos de trabalhadores e de professores, as organizações estudantis, os órgãos do governo e a sociedade em geral.

Via de regra, não é uma entidade marcada fortemente pelo ativismo político e nem por posicionamentos mais contundentes em relação ao descaso dos governos. Portanto, a saída dos desertores serve apenas para a criação de um “fato político” para as bases extremistas do governo, afinal, é certo que a contribuição desses falsos dirigentes é mínima para o campo da educação.

O prejuízo não é necessariamente para essas figuras, já que não tiveram um mínimo de respeito com suas próprias comunidades e nem a preocupação em manchar o próprio currículo, sobrepondo a ganância pela posição (ou outras pretensões em relação ao governo Bolsonaro). Também não significa que sua ausência será efetivamente notada, já que sua contribuição ao conjunto das universidades federais beira a zero. Quem sai prejudicada é a instituição comandada por esses membros oportunistas, já que perdem a inserção em um espaço de interlocução com a comunidade universitária de todo o país.

 

Os partidários do “sem partido”

Assim como acontece nos debates dos projetos conhecidos como “Escola sem partido” ao redor do Brasil, que visam cercear a liberdade de ensino, a postura dos reitores-interventores se baseia em questões externas ao debate da educação, tendo apenas motivações políticas e ideológicas (e, novamente, oportunistas).

Acusando tudo de “partidário” ou “ideológico” (termos evocados quando são derrotados na argumentação racional), são os extremistas que politizam as discussões da educação, em vez de priorizar a melhoria e a expansão do ensino superior federal.

A autonomia universitária é uma das premissas da gestão das instituições de ensino, permitindo que elas produzam conhecimento voltado aos interesses do povo, e não ao governo de plantão. Bolsonaro vem tentando destruí-la ao nomear reitores-interventores ambiciosos.

A nossa UFPR correu esse mesmo risco durante o processo de escolha da gestão da reitoria no final de 2020, mas a resistência das entidades representativas e da comunidade acadêmica impediu que esse projeto fosse implementado por aqui.

O que talvez alguns desses interventores não perceba é que o projeto autoritário, truculento e anti-educação do governo atual está ruindo, envolvido em escândalos de corrupção (já notado pela ampla maioria da população), ineficácia e centenas de milhares de mortes evitáveis na pandemia de Covid-19. O presidente enfrenta derretimento de seu apoio popular e agora recorre às ameaças à Democracia, às fake news sobre urnas e ao encontro com políticos estrangeiros neonazistas para manter sua base radical.

Quando tudo isso passar e esses reitores-interventores perderem o cargo que receberam por suas posições extremistas, sem nenhum esforço ou mérito, a história deverá reservar a eles o ostracismo acadêmico (é o mínimo que merecem). Serão párias nas instituições de ensino. Mas o tenebroso e lastimável papel que estão cumprindo neste período triste da história do Brasil e das universidades federais nunca será apagado.

Fonte: APUFPR


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