Professores voluntários: a “moda” nas universidades federais com reitores-interventores

22 de fevereiro de 2024
apufpr

Durante seu governo, Jair Bolsonaro nomeou 20 reitores-interventores para dirigir universidades federais, contra a vontade de suas respectivas comunidades acadêmicas, que haviam votado majoritariamente em outros candidatos durante os processos eleitorais internos.

Agora, muitas dessas instituições vem ofertando uma modalidade absurda de docência: o professor voluntário.

São vagas abertas pela instituição ou por departamentos específicos para que docentes possam lecionar ou fazer pesquisa sem receber remuneração e sem vínculo empregatício (consequentemente, sem direitos trabalhistas e previdenciários). 

Essa prática pode desviar a atenção de problemas estruturais mais profundos no sistema de educação federal, especialmente causados pelos anos em que os governos Temer e Bolsonaro tentaram avançar com o sucateamento das instituições federais de ensino, seja pelo estrangulamento financeiro ou pela ausência de contratação de novos para repor os deficits já existentes e as vagas abertas por causa de aposentadorias.

Além de representar um retrocesso nas conquistas trabalhistas e na luta por condições dignas de trabalho dentro das instituições federais de ensino, vai contra os princípios de fortalecimento da educação pública, gratuita e de qualidade.

Algumas vagas chegam a exigir apenas como titulação uma especialização. Mas a questão central vai além de avaliar se professores voluntários são qualificados ou não. A natureza temporária e precária de sua posição afeta continuidade pedagógica e o desenvolvimento de programas de ensino a longo prazo. A falta de vínculo formal com a instituição acaba limitando também a participação em programas de pós-graduação, de pesquisa e de extensão. 

Para a APUFPR, a luta contra a precarização do trabalho acadêmico e a defesa de condições dignas para professores e pesquisadores são pilares fundamentais para a garantia de uma educação pública de qualidade e para o avanço da pesquisa científica no nosso país. 

Por isso, seguimos lutando por políticas públicas que valorizem o trabalho acadêmico e garantam o financiamento adequado das universidades federais. E a abertura constante de concursos públicos para a contratação efetiva de docentes nas IFES é um passo essencial nesse sentido.

 

Coincidência?

Embora a oferta de vagas para professores voluntários não venha ocorrendo exclusivamente em universidades federais dirigidas por reitores-interventores, parecer haver uma correlação muito forte entre esses fatores, acima da média das demais instituições. Isso pode ser indício de um processo de desconstrução conceitual que pode estar ocorrendo nessas IFES, fruto da gestão conduzida por reitores que chegaram bionicamente ao cargo pelas mãos de setores extremistas. Situações como essa, em que o poder é exercido de forma autoritária e sem legitimidade, princípios básicos se desintegram e parte considerável da cultura de toda a comunidade pode ser contaminada.

Historicamente, as universidades públicas brasileiras são espaços de resistência, onde a Democracia é um valor cultivado, estimulado e defendido. Não por acaso, se tornaram alvo do ataque de extremistas antes, durante e depois do governo Bolsonaro.

Ainda hoje, militantes bolsonaristas invadem instituições e ensino para gravar vídeos hipócritas com o objetivo de estimular o ódio de seguidores radicalizados contra as comunidades acadêmicas.

Isso explica porque, durante os 4 anos de governo Bolsonaro, muitos desses interventores chegaram a participar das eleições e foram derrotados (geralmente, de forma humilhante, às vezes com menos de 10% dos votos), justamente por estarem alinhados aos setores antidemocráticos e extremistas da sociedade. 

Entretanto, muitos deles haviam entrado na disputa sabendo que, mesmo que fossem derrotados, seriam empossados pelo governo autoritário de Jair Bolsonaro.

Como essas pessoas optaram por manchar sua própria trajetória acadêmica, desrespeitando a tradição democrática das instituições, não é de se espantar que tentem implementar todo tipo de absurdos, que irão prejudicar as comunidades das quais eles mesmos fazem parte. 

Fonte: Apufpr


BOLETIM ELETRÔNICO


REDES SOCIAIS