Luiz Cado, nos combates do MMA e pelos direitos das ocupações

3 de fevereiro de 2021
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Foto: Reprodução Facebook Luiz Cado

Lutador profissional de MMA (artes marciais mistas), em meio a outros corres que um atleta brasileiro precisa para sobreviver, o curitibano Luiz Ricardo Simon, o “Luiz Cado” carrega o debate dos direitos da população para espaços onde as organizações de esquerda têm pouca presença. Além de lutador, ele integra também a torcida organizada do Coritiba Império Alviverde e da Coxa Comunas. Esta última, desde 2020, ao lado de outras torcidas, tem se posicionado publicamente pela democracia e contra o neofascismo.

Por meio de ações de solidariedade, Cado tem sido visto em ações nas áreas de ocupação de Curitiba, o que, para ele, o encantou: “Lá vivem pessoas com tão pouco de bens materiais, mas com tanto pra te dar: carinho, solidariedade e amor. Você acaba aprendendo com elas a cada dia lá. Acho que todas as pessoas deveriam ir às ocupações para aprender e ter esperança”, afirma, em entrevista ao Brasil de Fato Paraná, esse – literalmente – lutador do povo.

 

Brasil de Fato Paraná – Você tem atuado ativamente no apoio a áreas de ocupação em Curitiba. Uma imagem marcante foi, durante o despejo da Nova Guaporé, você ajudando as famílias a carregar os pertences. Como se deu essa aproximação?

Luiz Cado – A minha inserção dentro das ocupações não foi algo planejado, eu não conhecia nenhuma de perto. Ano passado, por meio do movimento Somos Democracia, que engloba as torcidas de esquerda, fomos conhecer a ocupação Nova Esperança, em Campo Magro, onde fizemos uma ação social – foi meu primeiro contato com uma ocupação. Foi amor à primeira vista, eu me apaixonei por aquele lugar e pelas pessoas que ali vivem. A forma como essas pessoas me trataram, como me receberam, me encantou. Lá vivem pessoas com tão pouco de bens materiais, mas com tanto pra te dar: carinho, solidariedade e amor. Você acaba aprendendo com elas a cada dia lá.

Acho que todas as pessoas deveriam ir às ocupações para aprender e ter esperança, pois a gente vê todos vivendo em comunhão, um ajudando o outro, não há preço que pague isso. Em relação a um despejo, é sempre algo muito duro e uma violência psicológica muito grande, e na Nova Guaporé não foi diferente. Eu sofro muito em ver essas pessoas perdendo suas casas, e estou sempre disposto a ajudar, gostaria de poder fazer muito mais por elas. Aquele momento pedia agilidade para retirar o máximo que pudéssemos antes que passassem com as máquinas, então estava lá para dar um suporte para as famílias. E torço pra que despejos assim não aconteçam mais.

 

Você é integrante também de torcidas organizadas. Na sua opinião, as organizações de esquerda estão voltando a ter inserção entre as torcidas organizadas ou é uma reaproximação apenas inicial?

Sou integrante da Império Alviverde há mais de 15 anos, também faço parte do Movimento Organizado Coritibano (MOC) e do Coxa Comunas. A Império não tem um lado político definido, a torcida deixa em aberto, para seus integrantes fazerem o que acham melhor. Por isso nunca sofri nenhum tipo de restrição por parte da torcida pelos meus posicionamentos políticos, a torcida é bem democrática, todo mundo tem direito de participar e poder falar o que pensa e tenho muito orgulho da minha torcida, por esses e diversos outros motivos.

Por outro lado, a esquerda nunca deixou de estar dentro das torcidas, porque nós somos o povo, a gente movimenta uma grande massa da classe trabalhadora que é envolvida por uma paixão, que vem do futebol. Porém, a esquerda vem perdendo espaços em alguns locais que antes eram hegemônicos. Posso estar equivocado, e muita gente vai achar ruim o que eu penso, mas a esquerda, de uns tempos pra cá, perdeu o diálogo com a quebrada; fala-se muito em termos difíceis, universitários: poderíamos chamar de uma “elitização da esquerda”. Na torcida não foi diferente, alguns representantes perderam o contato com as raízes e acabamos perdendo espaço.

Gosto de citar Mano Brown, que em 2018 disse que o PT iria perder a eleição porque perdeu a base e parou de falar a língua do povo. Penso da mesma forma, e acho que a esquerda em geral fez isso, não só o PT. Mas vejo mudanças, principalmente no ano de 2020, a coisa veio mudando. Dentro da torcida é trabalho de formiguinha a ser feito: um por um, a gente vai conversando e mostrando as coisas, e é bom que a galera abraça as nossas ideias, por isso também é importante criarmos lideranças políticas dentro das torcidas, para que defendam nossos direitos. Torcedor organizado é trabalhador, e sua grande maioria vem de periferia, por isso somos marginalizados pela mídia.

 

“Torcedor organizado é trabalhador, e sua grande maioria vem de periferia”

 

Como você avalia a repercussão da atual crise econômica, social e sanitária entre os torcedores?

As torcidas organizadas têm papel fundamental na sociedade, são como movimentos sociais, nós temos um poder de mobilização muito grande. Não dá para as torcidas serem neutras, porque vemos ataques diretos contra nós. Tem um senador do Rio de Janeiro, que eu não falo o nome pra não dar palanque, que propõe a extinção de todas as torcidas organizadas, e que sejam tratadas como uma facção criminosa, como um ato de terrorismo. Discursos conservadores como esse ganham destaque e somos obrigados a tomar lado, ou então vemos nossos amigos perdendo emprego, sem ter o que comer, ou como pagar suas contas, ou morrendo na pandemia por conta da incompetência de um chefe de Estado. Não tem mais como a gente não se mobilizar. Esse ano, vimos algo que nunca ocorreu na história do Brasil: a união das torcidas por uma causa, por uma luta política. Isso começou em São Paulo, depois Curitiba, agora já está acontecendo em todos os estados. Nos unimos para fazer o que é correto, lutar por nossos direitos e penso que isso deve se manter, deixar a rivalidade para os dias de jogos, e continuar na luta juntos.

 

Seu trabalho são as artes marciais e a disputa do MMA e você tem uma nova luta prevista. Como é a sua preparação? O seu trabalho social de alguma forma influencia a sua arte marcial, e vice-versa?

Vou lutar no próximo dia 6 de março, no Nação Cyborg, evento da campeã mundial Cris Cyborg. Tenho uma ótima preparação, treino na melhor academia do Brasil, a CM System, e lá tenho todo o suporte de treino, consigo me preparar muito bem, tenho ótimos professores e companheiros de treino. O nosso diferencial com certeza é o material humano que temos na academia, vem gente do Brasil inteiro treinar aqui pelo destaque que a academia tem. Temos alojamento, então muita gente mora na academia, como temos pessoas de diversos lugares, a gente consegue aprender muito e temos muitos atletas profissionais. Tenho uma rotina de dois a três treinos por dia, manhã e tarde, alternando com aulas de muay thai que dou para tirar meu sustento, pois não é possível viver de esporte no Brasil, não temos incentivo do governo e para arrumar um patrocinador é muito difícil.

Eu, por exemplo, consigo viver das aulas, tem gente na academia que trabalha de Uber, outros trabalham de segurança e assim vai. A relação do meu trabalho social tem seu lado bom e ruim. Já tive ameaças veladas por conta dos meus posicionamentos, nunca houve nada direto, mas dono de evento já veio me falar que não era bom para minha imagem de atleta me vincular a causas políticas, e que muita gente não iria vincular sua marca à minha imagem. Mas isso não interfere em nada, faço o que eu acredito ser correto e se o empresário não quer me patrocinar pelos meus posicionamentos, não faço questão de divulgar a marca dele, mesmo que isso me cause prejuízo financeiro.

O lado positivo é que eu consigo mobilizar muitas pessoas. A galera do meio do MMA muitas vezes não conhece áreas de ocupação, por exemplo, então quando eu preciso de doações ou alguma ajuda, eu jogo nas redes sociais e as pessoas sempre fazem de tudo para a gente alcançar as metas. Por meio da luta, eu posso alcançar pessoas que talvez não iriam escutar um discurso idêntico, mas falado por outra pessoa de fora do meio esportivo, eu posso chegar até esse público com mais facilidade. Tudo que eu tenho hoje eu devo à luta, ela formou meu caráter e me fez ser a pessoa que eu sou hoje. A gente aprende muito sobre disciplina, companheirismo e amizade. Mesmo sendo um esporte individual, existem diversas pessoas por trás, treinadores, companheiros de treino, família, tudo isso você carrega junto na hora da luta.

 

Edição: Lia Bianchini

Fonte: Brasil de Fato PR


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