Enquanto ministro se encontrava com deputada alemã neonazista, apagão derrubava plataforma do CNPq

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Ministro Marcos Pontes posa ao lado de politica neta de nazista
Foto: Ministério da Ciência e Tecnologia

“Se um nazista se senta à mesa com 10 pessoas e ninguém se levanta, então há 11 nazistas”. Apesar das dúvidas sobre a origem da frase (se é ou não um ditado alemão), a verdade é que a imensa maioria dos alemães concordaria com ela. Já os membros do governo de Jair Bolsonaro preferem ser o 11º a sentar-se na mesa.

Enquanto o principal banco de dados acadêmico do Brasil, a Plataforma Lattes, está offline (“fora do ar”) há dias, causando tensão entre pesquisadores e cientistas, o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes (é verdade, essa pasta ainda é ocupada pelo ex-astrounauta e ex-vendedor de travesseiros), se reunia com uma deputada alemã neonazista.

A Plataforma Lattes é gerida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), agência federal de pesquisa subordinada ao ministério comandado por Pontes. Ela reúne dados e currículos de todos os pesquisadores do país: sem o Lattes, é difícil fazer pesquisa no Brasil. Cerca de 84 mil pesquisadores são financiados diretamente com recursos do CNPq.

Ministério e CNPq não explicaram os motivos da queda do sistema, nem garantiram que ela não resultará em atrasos nos pagamentos de bolsas e auxílios ou em outros problemas para as pesquisas atualmente em curso. O CNPq sequer informou se há um “backup” das informações que estão inacessíveis.

Os extremistas ainda acham ruim quando as pessoas falam que eles odeiam a ciência…

Não foi um encontro qualquer?

É tão lamentável (mas também simbólico) ver quais são as prioridades do governo Bolsonaro. Em 22 de julho, dia em que os problemas na plataforma Lattes começaram, Marcos Pontes recebia em seu gabinete a deputada alemã Beatrix von Storch para um cafezinho, com direito a foto orgulhosamente publicada nas redes sociais.

Não consta que von Storch seja especialista em ciência, tecnologia ou inovação, supostas atribuições do ministro. O que se sabe, no entanto, é que ela é vice-líder do partido AfD (Alternativa para a Alemanha, na sigla em alemão), uma organização antissemita que cultiva ideais anti-imigração, racistas e sexistas.

Além disso, Beatrix, que já foi investigada por incitar ódio contra muçulmanos, é neta de Lutz Graf Schwerin von Krosigk, ministro das Finanças de Adolf Hitler na Alemanha nazista. Krosigk não era uma figura marginal nesse que foi um dos regimes mais cruéis e abomináveis da história da humanidade: foi ministro entre 1932 e 1945, e, após a morte de Hitler, foi chanceler substituto do governo nazista antes que soviéticos, ingleses e estadunidenses acabassem de vez com o pesadelo. Foi condenado pelo Tribunal de Nuremberg por crimes de guerra. Se outro avô teve carreira mais “modesta” no regime: foi membro da SA, uma milícia paramilitar.

Krosigk era, portanto, do círculo íntimo de Hitler e homem de confiança (afinal, para ter as chaves do cofre é preciso ter muita proximidade). Deixou como herança para o mundo alguém para perpetuar seus ideais e, de quebra, fazer com que governos extremistas passem vergonha mundial, como é o caso do brasileiro.

Bolsonaro também recebeu deputada

Bolsonaro ao lado de deputada alemã de extrema direita Beatrix von Storch
Foto: Reprodução/Instagram

Além de Pontes, Beatrix von Storch também se reuniu com a deputada federal extremista Bia Kicis e com o presidente Bolsonaro, em atividade fora da agenda.

Isso quer dizer que o presidente, chamado de genocida pela condução propositadamente catastrófica da pandemia, recebe com pompas e alegorias alguém ligado diretamente à história do genocídio judeu. Simplesmente revelador.

O partido de Beatrix von Storch é o primeiro a ser colocado sob vigilância desde o fim do regime nazista, pelo serviço de inteligência alemão, por suspeitas de tentar minar a Constituição democrática da Alemanha. Seus membros só são recebidos por párias da política mundial, mas, pela primeira vez, são recebidos por um chefe de Estado.

Os extremistas brasileiros (como o certo colunista de um ex-jornal igualmente extremista aqui do Paraná) logo saíram em defesa do presidente para lembrar que ele visitou o Muro das Lamentações em Jerusalém ao lado do ex-premiê israelense Benjamin Netanyahu e, por isso, não teria inclinação neonazista. Mas aí convém lembrar que Bolsonaro tenta fazer as pessoas pensarem que ele segue diferentes vertentes religiosas e ainda veste a camisa de todos os clubes de futebol. Ou seja, em busca desesperada de apoio, ele “reza para todos os santos”, como diz o jargão popular.

É claro que sempre há dúvidas se as ações do governo são marcadas pela incompetência, descuido com as informações (o presidente costuma receber pessoas fora da agenda sem saber seu histórico?) ou, mais provavelmente, pela vontade expressa de passar um recado para setores ainda mais radicais de suas bases, diante do derretimento de sua popularidade.

O governo brasileiro vem implementando medidas para fazer com que armas possam ser adquiridas e circulem com mais facilidade (a quantidade duplicou em seu governo, e os casos de homicídios aumentaram quase 5% em 2020). Agora, faz um agrado aos setores neonazistas, potencialmente ainda mais perigosos, enquanto alimenta a paranoia infantilizada de que haverá fraude nas eleições de 2022. Essa combinação tem tudo para não acabar bem para o Brasil.

Bolsonaro tem gastado milhões de reais dos cofres públicos em suas férias em Santa Catarina, estado com a maior presença de células neonazistas no Brasil. Mera coincidência…

Já Marcos Pontes, que depois cinicamente apagou as fotos com a deputada neonazista alemã, mostrou mais uma vez não estar à altura do cargo que ocupa ao cumprir cegamente as determinações de seu chefe (apesar de quase invisível, Pontes é corresponsável pelo desmantelamento da ciência no país). Ou será que ele, cuja presença no Ministério ninguém lembra, também não sabia do passado da parlamentar? Difícil acreditar nisso.

O que talvez Bolsonaro não tenha medido é que esse tipo de encontro pode aproximá-lo mais ainda do Tribunal de Haia, que julga os crimes contra a humanidade. Um caminho que o deixaria próximo, novamente, do passado da deputada Beatrix von Storch.

Fonte: APUFPR


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