Apesar de alta de 1% do PIB, indústria continua no “zero a zero”

Foram dois anos seguidos de uma recessão que fez a economia brasileira encolher 7% entre 2015 e 2016. Agora, há um suspiro de alívio com a expansão de 1% do PIB em 2017, que está longe de repor as perdas da crise e leva a economia brasileira a recuperar o mesmo patamar de 2011.

Se no ano passado “São Pedro ajudou”, como resume o presidente do Conselho federal de Economia (Cofecon), Julio Miragaia, e fez a agropecuária crescer 13%, o mesmo não deve acontecer em 2018. A continuidade da recuperação passa essencialmente pelo crescimento da indústria, segundo os economistas ouvidos por CartaCapital.

O resultado de 2017 já era esperado e o comportamento dos componentes do PIB fecharam o ano reforçando a trajetória vista desde o primeiro trimestre de 2017, quando a economia brasileira interrompeu a sequencia de oito trimestres de retração.

“A indústria ficou no zero a zero e São Pedro ajudou a agropecuária, que puxou o PIB do ano mesmo tendo um peso pequeno”, afirma Miragaia, que lembra que a indústria foi o setor mais penalizado até agora pela crise. “A recuperação da indústria puxa também o setor de serviços de apoio à atividade industrial. É essencial que a indústria recupere espaço no mercado nacional”, reforça.

Para João Ildebrando Bocchi, professor do Departamento de Economia da PUC-SP, a tendência é de recuperação da indústria ao longo de 2018. “A indústria estagnada em 2017 é preocupante, pois um ciclo virtuoso passa pela indústria”, afirma o professor, lembrando que é ela quem gera empregos de melhor qualidade, capazes de melhorar o consumo interno. Mesmo num cenário positivo, uma recuperação plena, segundo Bocchi, demorará cerca de três anos.

Apesar da estabilidade em 2017, a indústria cresceu 0,5% no último trimestre do ano em relação aos três meses anteriores, o que apontaria para essa tendência de recuperação. Outro indicador fundamental nesta análise é a formação bruta de capital fixo, que mede o investimento do setor produtivo. No ano, houve queda de 1,8%, mas crescimento de 2% no último trimestre, a primeira expansão depois de 14 trimestres de baixa.

“O investimento vai determinar a capacidade de crescimento e há uma leitura clara de que ele está se recuperando . Todos os indicadores foram melhores no último trimestre do que no ano todo, a questão é a velocidade em que isso se dará”, pondera o professor de macroeconomia do Ibmec-SP André Diz. Para ele, uma real recuperação só se dará em três ou quatro anos.

Consumo

consumo das famílias, componente fundamental do PIB, cresceu 1% no ano passado, em linha com o ritmo da atividade econômica como um todo. O problema é o que motivou esse consumo. Em momentos mais saudáveis, é o aquecimento da economia, com aumento da renda, que eleva o consumo, o que não foi o que aconteceu em 2017. “O consumo positivo vem da inflação baixa”, explica Miragaia. “E não há mérito nenhum do Banco Central, já que a inflação está baixa por causa da recessão e não pelo controle monetário”, critica.

Miragaia lembra também que a liberação dos recursos das contas inativas do FGTS deram uma mãozinha para o consumo das famílias. A partir de agora o que poderá de fato sustentar o consumo é a geração de emprego. Embora em queda, a taxa de desemprego ainda está num patamar historicamente elevado e há um contingente de mais de 12 milhões de brasileiros sem nenhum trabalho. Além disso, as ocupações que surgem são e qualidade duvidosa, o que compromete a renda do trabalhador.

“A recuperação do consumo se dá sobre bases muito baixas e muito lentamente”, lembra André Diz. “A economia cresceu, mas dentro da expectativa. E abaixo do que devia e precisávamos. O desemprego comprova isso”, finaliza Bocchi.

Fonte: Carta Capital


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