Manifesto de repúdio – ErêYá Grupo de Pesquisa e Estudos em Educação para as Relações Étnico-raciais da UFPR

O ErêYá Grupo de Pesquisa e Estudos em Educação para as Relações Étnico-raciais da UFPR, Universidade Federal do Paraná, vem à público para manifestar tristeza e indignação com a morte de Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos de idade. Sua morte é resultado da negligência por parte da pessoa que deveria cuidá-lo, isto é a patroa de sua mãe. Reiteramos que a morte de Miguel expõe a perversidade do racismo estrutural da sociedade brasileira. Ou seja, expõe o descaso, o abandono social pelas vidas negras, pelos pobres e pelas mulheres negras, que no Brasil ainda ocupam a maioria dos postos de trabalho no serviço doméstico. Mirtes, uma trabalhadora doméstica que mesmo diante da maior crise sanitária vivida no mundo contemporâneo precisou deixar seu filhinho de 5 anos sob os cuidados da patroa para passear com os seus cachorros. Mirtes, uma mulher negra, como tantas, escolhe alimentar seus filhos à deixá-los passar necessidade em meio à pandemia que estamos enfrentando e vai trabalhar com ele.

Diante desse fato, convocamos a sociedade a nomear corretamente o que ocorreu com essa criança, isto é: racismo. Convocamos a sociedade a indagar: Porque a uma criança negra, nega-se o direito de ser criança? Por que a uma criança negra, nega-se o direito de cuidado, colo, afeto e atenção? Porque o menino negro de 5 anos, filho da empregada doméstica, foi posto sozinho em um elevador e abandonado à própria sorte?

A pergunta que não quer calar é: e se o caso fosse o inverso? Quais seriam as penalidades? Qual seria a repercussão?

O racismo é tão forte em nossa sociedade que as pessoas não se dão conta de como ele a estrutura, não percebem que também fazem parte dessa rede e não se dão conta de seus privilégios.

No caso de Mirtes, a mãe, nada restou senão chorar a morte do filho e carregar essa dor pelo resto da vida, uma vez que a justiça do nosso país não lhe fará jus.

Nossa solidariedade a essa mãe por ter que sentir na alma a pior dor que uma mãe pode sentir: a perda de um filho.

Nossa manifestação de indignação à essa sociedade que faz de conta que vive em uma democracia racial, em que todos são iguais e o preconceito não existe.

Estamos de luto por tudo que nosso país vem enfrentando e renovamos o compromisso de não esmorecermos, apesar de tantas batalhas perdidas. Continuaremos reafirmando o nosso compromisso em favor de uma educação antirracista e da construção de um mundo mais humano, em que as pessoas tenham igualdade de oportunidades.


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