APUFPR_GTPEoutubro_artigo2-FACE É importante acionarmos o sinal de alerta sobre os limites do Movimento Escola sem Partido. Seus efeitos seguem em direção contrária ao que compreendemos como formação, por isso entendemos ser um movimento de antieducação.

Esse movimento, criado em 2004, ganha força em 2014 através da tramitação de projetos de leis Municipais, Estaduais e Federais. O grande slogan do movimento é o “Combate à doutrinação Ideológica”, na defesa de que a atividade educativa deve ser técnica e neutra, isenta de valores. O diagnóstico é de que há muitos professores que doutrinam seus alunos em sala de aula, e devem ser punidos por isso. Assim, a proposta visa proibir que determinados assuntos sejam tratados nas aulas, ou seja, visam censurar o debate nas escolas.

E por que somos contrários ao Movimento Escola Sem Partido?

1) Ao proibir que determinados assuntos sejam tratados na escola, nega-se o debate de questões alarmantes da realidade social, suas contradições, ou seja, se nega as possibilidades de pensar sobre os processos ideológicos que sustentam a exclusão, a dominação e a barbárie. Como ser indiferente às diversas formas de violência e exclusão, presentes na realidade social e que fazem parte da realidade dos alunos, como a violência contra a mulher, o racismo, o machismo, a homofobia, entre outros?

2) Ao almejar a neutralidade, nega-se a própria natureza complexa dos processos educativos. Isto é, o discurso da neutralidade não deixa de ser ideológico na medida em que propaga uma visão estática das interações sociais e dos sujeitos.

3) Ao propor a punição ao professor, o movimento incentiva à perseguição, à denúncia e à intolerância. Cria materiais com esse teor, amplamente disseminado nas redes sociais. A linguagem utilizada é a do ódio, com caricaturas que criminalizam os professores e hostilizam intelectuais, atribuindo ao professor um papel restritivo, como um burocrata. Na criminalização dos professores, se altera o cotidiano das escolas, em um clima de denuncismo e “caça as bruxas”, ou melhor, “caça aos professores doutrinadores”, produzindo mais violência e intolerância na escola, totalmente contrário a qualquer ato educativo.

4) Ao admitir a intolerância e o ódio ao diferente no interior das escolas, nega-se a própria existência do outro, o que esbarra nos limites do fascismo e da barbárie. No século XX, os teóricos da Escola de Frankfurt nos alertaram sobre a importância em se privilegiar o tema da Formação, de promover uma experiência formativa autêntica, uma autonomia intelectual. Ou seja, promover uma educação que possibilite a compreensão da realidade, pois somente assim não se reproduziria atrocidades como Auschwitz. Para Adorno, filósofo que viu de perto o Holocausto, a educação teria como imperativo categórico “que Auschwitz não se repita”.

É importante alertar a sociedade e os (as) educadores (as) sobre os efeitos da ideologia desse movimento na escola, que reforça a intolerância, o ódio e o preconceito. Seus pressupostos carregam armadilhas sedutoras, como aquela expressa na dicotomia do próprio nome do movimento, sugestiva de isenção política.

 Os pressupostos do movimento esvaziam as potencialidades críticas e emancipatórias possíveis de acontecer na escola, necessárias para que os estudantes sejam capazes de pensar e de assumirem uma postura crítica diante das complexas relações sociais. Em sentido contrário, faz-se necessário fortalecer práticas educativas solidárias e vigilantes.

Desse modo, reafirmamos o papel da escola, como espaço de diálogo, debates e reflexões, como espaço democrático e plural de confronto de ideias e, especialmente, espaço de combate às formas de violência, preconceito e discriminação que se reproduzem socialmente, inclusive, na escola.

Fonte: 

Renata Peres Barbosa

Marcia Baiersdorf